


Sorointerrogativo é uma palavrinha que sempre me pareceu perigosa. Quem interroga quem nesse processo? Quem deve se confessar? A quem interessa dizer tudo sobre si mesmo, nos detalhes mais íntimos?
Talvez por isso, entre outras tantas coisas, nosso projeto nasceu não de uma interrogação, mas de uma afirmação: o hiv é uma infecção crônica. Está tudo documentado desde 2008 de modo definitivo, naquele artigo lindo do Vernazza et al. que anunciava a intectabilidade radical e seus efeitos. Era coisa ganha.
Eis que estamos nesse rolê de pesquisa há uns bons dez anos e eis que, nesses dois últimos anos, muita conversa e muita escuta sobre o hiv e a aids aconteceram. A gente viu os muitos hivs, a gente pesquisou a invenção da categoria de crônico, a gente viu muita vulnerabilidade e ainda, para deixar as coisas mais densas, a gente agora assiste a uma série de estratégias políticas que tendem a produzir novos problemas para quem vivem com hiv.
Nesse processo, o momento, pois, é sorointerrogativo. A gente vai colocar uma interrogação onde antes havia a exclamação. Isso não quer dizer que viver com hiv não é uma condição crônica, mas é notar que há muitos fatores que contribuem – ou não – para isso. É meio que pensar com aquele “desaparecimento da aids” do Richard Parker: desapareceu pra muita gente, mas há outras pessoas que, diariamente, enfrentam outras questões para ter a vida a que têm, em tese, direito.
Isso obviamente não é um problema sintático de pontuação. Diz respeito a, ainda, repensar os modos de ação políticos para o que enfrentaremos no futuro. Estamos vendo que basta uma coalisão de direita radical para extinguir, numa canetada, muitos direitos – e para produzir preconceito e, vejam lá, estigma (esse fantasma que parece não abandonar a vida com hiv).
Somos, pois, É só mais uma crônica, mas também: É só mais uma crônica? Pra quem e com que distribuições sociais, econômicas, farmacológicas, corporais, raciais, regionais etc etc etc.?
Nessa interrogação, a outra novidade deste 2025 é nosso “a gente” estendido, com as pessoas que fazem colunas para o Portal e pensam o hiv de outros lugares e com outras embocaduras: Arthur, Laurinha, Letícia, Matheus, Maria Karolyna. O ESMUC!?, assim cheio de dúvidas e aberto aos enfrentamentos, cheio de gente a fim de conversar, parece um lugar mais arejado e disposto.
Pra esse ano, vamos ter livro de entrevistas, evento, livro de discussão acadêmica e nossos textos semanais. Num tempo de cortes de gastos, o projeto também funciona como resposta de uma universidade pública efetivamente preocupada com o que há no mundo, como a UFSC gosta de ser. Nossos mundos, aqui, esperam ser cada vez mais amplos.
Era tudo isso. No mais, segue a gente, compartilha, fala, colabora. A interrogação e a exclamação são pra todas as pessoas, afinal.
Por Atilio Butturi Junior
professor da UFSC – do Programa de Pós-Graduação em Linguística e do Doutorado Interdisciplinar em Ciências Humanas da UFSC – e coordenador do projeto “É só mais uma crônica”. Pesquisa o “dispositivo crônico da aids” (termo que cunhou) desde 2015. Está interessado em produzir saber e política sobre hiv e em pensar uma análise neomaterialista dos discursos.